Ao Pé do Ouvido
Amaurílio Sodré
O frango a passarinho: fato ou ficção?
- 30/7/2010
Após perceber que tomaria um chá de cadeira por quatro horas, resolvi sair da sala de embarque e dar uma volta pelo aeroporto de Brasília. Olhando pelas vitrines das lojas percebi que tudo realmente tem o preço para aqueles consumidores de poder aquisitivo bem acima da média. Também não para menos, na capital do país o que você esperava? Uma lugar regido pela democracia, onde impera a vontade dos senadores e deputados, além do Executivo e Judiciário, é claro, os valores não poderiam ser tão populares, ainda mais dentro de um aeroporto.
Após perambular despretenciosamente por várias portas e vitrines, deu aquela vontade de mastigar algo, ou seja, aquela fome. Eu fui então olhar os bares e restaurantes. Parei em frente a um restaurante enorme e tão bacana que até dá medo de entrar. Mas entrei assim mesmo. De cara havia uma placa escrita: buffet para uma pessoa R$ 45. Que dureza! 45 pilas para comer 800g de comida, se é que você leitor consegue comer essa quantidade. Bom, fui adiante com a cara e a coragem olhar os pratos oferecidos. Poxa, cada prato mais fantástico que o outro. Camarão, salmão, picanha, frango, bolinhos, arroz com isso e com aquilo, muitos doces e bombons. Mesmo assim voltei a pensar no preço, pobre é dureza.
Neste mesmo restaurante existe um mezanino com uma espécie de barzinho e uma TV de não sei quantas polegadas. Resolvi subir e tomar um chopp. Garçom, um chopp por favor! Em menos de 5 minutos um copo geladíssimo estava em minha frente, transbordando, e eu logo sorvi daquele líquido amarelo e gelado em poucos segundos. Pedi o segundo chopp e foi tudo igual. Relaxei e fiquei olhando ao redor para algumas pessoas que estavam sentadas aleatoriamente pelo recinto. Algumas com ternos elegantes, outras com blazeres, celulares a postos e notebook abertos. Ops! Eu vi um senhor com um ar de deputado, meio jovem, com um notebook aberto, um copo de chopp a sua frente, olhando fixamente para a telinha. De repente o garçom veio e colocou sobre a mesa uma porção de frango a passarinho alho e óleo. Estava com a aquele cheiro maravilhoso e minha boca encharcou de saliva. Nossa, que prato bonito!
Pedi ao garçom o cardápio e outro chopp. Olhando para o cardápio logo encontrei a tal porção. Menina, quase caí de costas! Uma porção de frango por apenas R$ 25! Quê isso! Dá para comprar aqui em Monlevade pelo menos 5 quilos de peito de frango. Minha boca secou. É duro ser pobre. Olhei novamente para aquele senhor, que elegantemente havia comido apenas dois pedaçinhos de frango, quando o celular dele tocou. Ele atendeu o celular, conversou alguns minutos, chamou o garçom e pediu a conta. Gente, será que ele vai embora? O garçom pegou o cartão de crédito e quase em um segundo trouxe a fatura.
Quando o garçom passou por mim eu perguntei para ele: Escuta, aquele senhor já vai embora? Ele respondeu: Sim doutor! Eu disse: Eu te dou R$ 5 para você trazer aquela porção de frango para mim. O garçom olhou e me disse: claro doutor.
Nossa que bom. O senhor com jeito de deputado foi embora e logo a porção de frango mudou de lugar. Veio parar bem na minha frente. O veneno até escorreu pelos cantos da boca. Pedi outro chopp e eu comi aquele frango quentinho, no alho e óleo, com se fosse a minha última refeição da vida. Estava ótimo! Então me ocorreu outra dúvida, essa ainda mais cruel, o garçom havia me chamado de doutor. Será que ele me conhece? Se me conhece, de que lugar? Será que ele lê o Jornal Monlevade? Jesus tem poder!
Olhei para o garçom, fiz aquele gesto característico e ele prontamente me atendeu. Perguntei: porque você me chamou de doutor, o senhor me conhece? Ele respondeu: não senhor, mas você deve ser médico ou dentista, pois só vocês fazem isso aqui! Sorriu e saiu para atender outra mesa.
Moral da história: a situação tá preta mesmo!
Amaurílio Sodré é ortodontista, jornalista e radiologista
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