Coluna Livre
Marcos Tadeu
O travesseiro, meu amor. O ronco, meu legado
- 4/3/2010
Resolvi ter um caso de amor com o meu travesseiro. Minha mulher bem que tentou impedir, mas, na verdade, nada pode fazer. Com sua fronha verde desgastada e babada, deveras fedorenta, a extensão que abrange todo o meu rosto e o macio das penas que se molda aos movimentos da cabeça. O travesseiro me conquistou e, ah, estou bem certo de que outra coisa melhor no mundo não há.
Pessoas correm por aí afora em busca de algo que lhes satisfaça. Eu tenho meu travesseiro. Viagens e mais viagens são feitas, casas são compradas, lotes construídos, riquezas amontoadas. Eu tenho meu travesseiro. Cargos são almejados, esquemas são descobertos, tapetes são puxados. Mas ninguém puxa meu travesseiro. Eu e meu travesseiro, ninguém tem a capacidade de nos provocar.
Já me ofereceram travesseiros de diferentes marcas. Desirée, coitada, vez ou outra me aparece com algum assimétrico que porventura substitua o meu original. Não adianta. A antipatia cresce à medida que eu tento me convencer de que é preciso me adaptar às novidades de um travesseiro em formato de balão. Como aquelas mulheres de malandro, aproveito que Desirée se distrai e volto logo para o meu travesseiro.
Meu travesseiro não vale nada, mas eu gosto dele. Enquanto eu puder dormir, roncar e babar sobre as suas fronhas depois de um longo dia de trabalho, com certeza, estarei bem. Enquanto eu tiver meu travesseiro a me esperar e puder me confortar com sua macieza durante o meu sono abençoado, não preciso me incomodar com a insônia dos outros. Pois se há alguma coisa que eu hei de legar aos meus filhos, um dia, é o meu ronco.
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